Segunda-feira, Outubro 01, 2007

As Promessas de Um Rosto















foto: Jorge Moreira



Charles Baudelaire

Amo, ó pálida beleza, tuas sobrancelhas arcos
Parecem verter noturnos
Teus olhos, embora muito-negros, me inspiram fatos
Nem sempre soturnos.

Teus olhos, que ao teu negro cabelo se combina,
A crina elástica,
Teus olhos, langues, me dizem na retina:
“Se queres amante da musa plástica,

Confiança na fé que em ti excitamos,
E nos sabores que professas,
Poderás constatar o que afirmamos
Do umbigo às nádegas confessas;
Verás no bico desses belos seios carnudos,
Dois vastos medalhões de bronze,
Sob um ventre sereno como o veludo,
Castanho-escuro como pele de monge;
Um rico tosão que é o gêmeo, na verdade,
Dessa outra enorme crina
Ágil e frisada, e que te iguala em densidade,
Noite sem astros, noite em surdina!"
(tradução Jacineide Travassos)


Minha tradução tem como texto-base a edição de Cluny (Paris,1936), a mesma manuseada por Ivan Junqueira na edição bilíngüe de Les Fleurs du Mal lançada pela Nova Fronteira. Consultei ainda o texto de José Paulo Paes – que consta no livro Poesia Erótica (Ed. Companhia das Letras) – traduzido de Les Epavés (seção final de Les Fleurs du Mal, Paris, Libraire Mirelle Ceni, 1963.

Os tradutores citados, lamentavelmente, priorizam os cânones rímicos e rítmicos relegando, quase sempre, a segundo plano o aspecto imagético. Ambos, ao supervalorizá-los, esquecem-os como parte da “poética” (agenciamento estrutural-semântico do texto). Não se pode negar que como bom simbolista, o “métier poétique” baudelaireano centra-se na musicalidade sem jamais prescindir das sinestesias (jogos de sentidos enquanto rede de percepções físicas, correspondências entre a visão, audição, tato, olfato, paladar) e do cromatismo (sugestão de cores); onde o EU dilui-se na materialidade da linguagem e do cosmos. Busquei uma fidelidade maior ao texto em sua totalidade.

Domingo, Setembro 30, 2007

Então é Primavera

Chema Madoz






















no branco-lírio dos olhos
é noite
primavera de astros

firo os pés em estrela marinha
flor de pedra
vermelho coágulo

sangro fome de pássaros



Encantação do Tigre













o
mar;
digo: tigre,
pupilas de verde fúria;
suas tígricas vagas, garras,
punhais esfervilhantes
em arcadas de espuma, presas aguçadas;
o fluir e o refluir de suas águas
sem ondulação, tigrinoso emblema da fera,
cantabile alabarda em jaspe e luzidia prata urdida,
nos seduz como selvagem dança sarracena,
seus lenços de tépida alfazema escura;
dissolvidos em seu puro olhar
de algas em si algas, najas, corais
em opalino alvoroço musgoso,
não mais resistimos, estancados na argêntea areia,
e entramos em suas águas de água
sob o sol; aí cessamos.

(Claudio Daniel)





















pouso das garças
lago branco
lírios de água


Poética


















o vento cobre o barro
o oleiro faz do vaso o vazio
opala derramada
sobre o negro dos olhos

o barro cobre o vento
o oleiro faz do vazio o vaso
a mesa outonal desfaz-se em folhas





Sábado, Setembro 29, 2007

Natureza Móvel Com Peixes Vermelhos

Matisse



















O mundo faz-se do olhar
espaços sugeridos pela diagonal
planos sem volume
dissolvem-se na memória

As mãos lentamente
erguem a escritura das ondas

O olhar afoga-se
por entre o anil do céu
e o musgo das árvores
compõe-se o quadro dos amantes
navega-se sobre as águas do ar
plumas semeadas de olhos

O navio alça-se pássaro
lança-se em águas etéreas
a âncora faz-se ânfora
os corpos entrelaçam-se
na trilogia do sonoro do diáfano do móbil
na ânsia do toque
os olhos
mergulha-os no aquário
com peixes vermelhos


Haikai


foto: Chema Madoz


gotas d'água
na lâmina do lago
flores de cristal

(Bernardo Souto)


Segunda-feira, Setembro 04, 2006

Nascimento do Mundo

foto: Jorge Moreira



O verbo se fez. Dizem que surgiu do hálito do homem, um sopro na terra. Antes da terra o homem, antes do homem o vento, antes do vento Idea que se fez verbo. Idea abriu os olhos para dar origem às coisas e pensou o mundo, a princípio, dividido em dois azuis: um azul de sombra e um azul de luz. Inventou a Morte e a Eternidade, a Caverna e a Inteligência. Idea, embora não soubesse, havia de separar o mundo em dois iguais. Disse: - Acima de mim as alturas, a região celeste. Fixou os astros. Para o céu pensou a Paz e todas as criaturas aladas, como um primeiro sopro da alma disse “Pássaro” e o som desta palavra trouxe o Vento.
Idea viu que o Vento, nascido do Pássaro, era em abstrato. Ser em abstrato talvez tenha sido a intenção da palavra Pássaro, mas o Vento queria também ser palavra e não apenas som de Pássaro. Fez-se então a Vontade e para que o Vento pudesse ser visto e se mover entre as coisas, Idea criou as Nuvens. As Nuvens, nascidas da Vontade e do Vento, logo quiseram ser mais que suas formas. Das Nuvens surgiram Desobediência e Desordem. Já que as Nuvens existiam em razão do Vento, Idea concedeu-lhes a Terra para que fossem também palavra. A Terra sabendo-se palavra dura, sendo apenas a contradição das Nuvens, quis ser pátria para o Pássaro, teria que acolher o Vento. Idea pensou para a Terra também a Água.
Tão distante dos astros, sendo apenas o seu espelho, Água reclamou à Idea o seu sentido, os peixes foram criados ao modo dos pássaros. O Vento é o que move as águas. Criou-se os Cavalos Marinhos e toda sorte de plantas e seres viventes, que logo quiseram astros para animar seus azuis, Idea valeu-se de duas palavras para medir o céu do mar. Fez-se a Estrela Marinha.
A Terra atribuía sua dureza ao Sol que lhe corava em seus vermelhos. A Terra Chorou ao conceber Pedra. Foi para seu consolo que Idea criou a palavra Sede, e fez a água ser-lhe útil. Pensou toda a sorte de Verdes e Marrons e deu-lhe o mar, o rio e o lago, as árvores, os cavalos e a Ilha. Elegeu o Sol, a Lua e os outros astros para dar ritmo a tudo, surgiram as Estações e a Música. Para dar-lhes sentido casou-as com o Tempo.
O Tempo, sonhando-se Deus, riu do Homem que o mede, vive enciumado de tudo que existe e é o pai de Necessidade e Solidão. Concebeu-as para justificar o seu nome.
O Homem, embora pense ter surgido depois de tudo, é o próprio Verbo. Nasceu da vontade que Idea compartilhou com o Vento de não ser apenas em abstrato, mas existir.

( Livro dos Ventos)

Sexta-feira, Setembro 01, 2006

Paralelo ao Vento


Andaimes
para o vento:

Nuvens.

(Albano Martins)