Quarta-feira, Fevereiro 22, 2012

Canção de Uma Dama na Sombra



















Quando vem a taciturna e poda as tulipas:
Quem sai ganhando?

Quem perde?
Quem aparece na janela?
Quem diz primeiro o nome dela?

É alguém que carrega meus cabelos.
Carrega-os como quem carrega mortos nos braços.
Carrega-os como o céu carregou meus cabelos no ano em
[que amei.
Carrega-os assim por vaidade.


E ganha.
E não perde.
E não aparece na janela.
E não diz o nome dela.
É alguém que tem meus olhos.
Tem-nos desde quando portas se fecham.
Carrega-os no dedo, como anéis.
Carrega-os como cacos de desejo e safira:
era já meu irmão no outono;
conta já os dias e noites.


E ganha.
E não perde.
E não aparece na janela.
E diz por último o nome dela.
É alguém que tem o que eu disse.
Carrega-o debaixo do braço como um embrulho.
Carrega-o como o relógio a sua pior hora.
Carrega-o de limiar a limiar, não o joga fora.


E não ganha. E perde.
E aparece na janela.
E diz primeiro o nome dela.


E é podado com as tulipas.  

Tradução: Claudia Cavalcanti

* 

Paul Celan, filho de judeus de língua alemã, enaltecido como um dos maiores poetas do pós guerra, carregou e registrou em sua obra a marca do terror nazista. A desolação pela perda dos pais, mortos em um campo de extermínio do qual fugiria, trouxe até nós um texto denso, vigoroso e envolto em silêncio e dor.

Segunda-feira, Fevereiro 20, 2012

Bodas de Sangue - Lorca





“Não posso ouvir você. Não posso ouvir sua voz. É como se eu bebesse uma garrafa de anis e dormisse numa colcha de rosas. E me arrasta, e sei que me afogo, mas vou atrás”.

(Noiva para Leonardo)


"Porque eu fui com o outro, eu fui! Você também teria ido. Eu era uma mulher abrasada, cheia de chagas por dentro e por fora, e seu filho era um pouquinho de água de quem eu esperava filhos, terra, saúde; mas o outro era um rio escuro, cheio de ramos, que me trazia o rumor de seus juncos e seu cantar entre dentes. E eu corria com seu filho, que era como um menino de água fria, e o outro me mandava centenas de pássaros que me impediam de andar e que derramavam geada nas minhas feridas de pobre mulher consumida, de moça acariciada, pelo fogo. Eu não queria, está ouvindo? Eu não queria. Seu filho era meu fim e eu não o enganei, mas o braço do outro me arrastou como a maré, como a cabeçada de um touro, e teria me arrastado sempre, sempre, mesmo que eu fosse velha e todos os filhos de seu filho me puxassem pelos cabelos!"

(Noiva para Sogra)

Garcia Lorca
'Bodas de Sangue'
Editorial Losada
Tradução. Jacineide Travassos

Um Poema de Daniel Faria















Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos
Porque tinha uma mulher no pensamento
Sei que os lavava como se os contasse

Sei que os enxugava com a luz da mulher
Com os seus olhos muito claros voltados para o centro
Do amor, na operação poderosa
Do amor

Sei que cortava os cabelos para procurá-la
Sei que a mulher ia perdendo os vestidos cortados

Era um homem imaginado no coração da mulher que lavava
O cabelo no seu sangue

Na água corrente

Era um homem inclinado como o pescador nas margens para ouvir
E a mulher cantava para o homem respirar

Daniel Faria


*

Daniel Augusto da Cunha Faria, poeta português, nasceu em Baltar, Paredes, a 10 de Abril de 1971 e morreu em 9 de junho de 1999.

Domingo, Fevereiro 19, 2012

Carnavalização - Carne, Arte, Palavra

Kara Walker








A carnavalização dos textos se confunde com o que se convencionou denominar de polifonia discursiva; para distinguir a multiplicidade de vozes, de certos textos, do dialogismo constitutivo de todo discurso.

O teórico russo Bakhtin desenvolve a questão da literatura carnavalesca principalmente ao descrever as festas medievais na obra de Rabelais. Tais festas são consideradas como"segunda vida" do povo, pois ofereciam uma visão do mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferente, deliberadamente não-oficial, exterior à igreja e ao Estado; parecia terem construído ao lado do mundo oficial, um segundo mundo e uma segunda vida, a que os homens da Idade Média pertenciam em maior ou menor proporção e em que viviam em datas determinadas. Isso criava uma espécie de dualidade do mundo...

Em outras palavras, com a festa o mundo era colocado do avesso, vivia-se uma vida ao contrário, pela suspensão das leis, das proibições e das restrições da vida normal, invertia-se a ordem hierárquica e desaparecia o medo resultante das desigualdades sociais, acabava-se a veneração, a piedade, a etiqueta, aboliam-se a distância entre os homens, instalava-se uma nova forma de relações humanas, renovava-se o mundo. A festa que mais plenamente assumiu essa renovação universal foi o carnaval.

O conceito de ambiguidade, de duplicidade, de ambivalência, enfim, é por conseguinte, essencial para que se compreenda a carnavalização bakhtiniana. Sobre a visão carnavalesca do mundo se assenta, para o autor, uma cultura carnavalesca de que decorrem grandes obras, como as de Cervantes ou Dostoiévski ou o picaresco em geral. Só como exemplo, não podemos esquecer que Cervantes tirou a máscara do Cavaleiro medieval e foi lutar com moinhos de vento...O avesso do herói imbatível...Aí está o homem e o herói ou anti-herói moderno.

No quadro de uma teoria semiótica do discurso se estende a noção de ambivalência à duplicidade dialógica de cada nível de descrição do texto, na caracterização dos discursos poéticos. Os discursos literários se caracterizam, em resumo, pela ambivalência intertextual interna que, graças à multiplicidade de vozes e de leituras, substitui a "verdade universal", única e peremptória pelo diálogo  de "verdades" textuais (contextuais) e históricas.

Evoé Baco! Evoé Vênus! Evoé Momo! Evoé Bakhtin!

Bacanal

Kara Walker





















Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!

Se perguntarem: que mais queres,
além de versos e mulheres?...
- Vinhos!...O vinho que é o meu fraco!...
Evoé Baco!

O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu domo
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!


Manuel Bandeira
'Carnaval'

Do Amor Bom - James Joyce e Nora


                                                                                         12 de julho de 1904

Minha querida goodzinha dos sapatos marrons. Esqueci-me - não posso ir a teu encontro amanhã (quarta-feira) mas irei na quinta à mesma hora. Espero que ponhas minha carta na cama como convém. Tua luva passou toda a noite ao meu lado - desabotoada - mas quanto ao mais comportou-se muito bem - como Nora. É favor deixar de lado aquela couraça pois não gosto de abraçar uma caixa de correio. Está me ouvindo agora? (Ela está começando a rir). Meu coração - como dizes - sim - é bem assim. Minha linda flor agreste das sebes! Minha flor azul-marinho  encharcada de chuva!                                                            
                                                                                               
                                                        Um beijo de 25 minutos no teu pescoço.
               
                                                                                                   James A. Joyce


James Joyce
'Cartas a Nora'
Massao Ohno Editor

Sexta-feira, Fevereiro 17, 2012

Pachelbel - Belíssimo Canon


Há Uma Mulher

Alessandro Marziano














Há uma mulher que desenrola os seus cabelos nas sílabas
e perfuma-as com o odor da sua lenta vulva
Ela tanto pode ser uma fêmea da lua como uma rapariga solar
Nas suas ancas ondula um indolente outono e nos seus seios desponta a primavera
Eu vejo-a e não a vejo na brancura da página
porque ela flutua vagamente na distância como uma lua no meio-dia
Mares bosques clareiras fontes em delicadas e delgadas linhas
fluem com o fulgor dessa mulher azul
As palavras caminham com o ritmo fresco dos seus pés descalços
sobre uma praia fulva de conchinhas brancas
O seu hálito doce embriaga as leves sílabas
e a doçura do seu lábio impregna as frases nuas
Ela é a presença ausente corpo da aragem viva
e a sua felicidade é tão vaga como vaga a sua longínqua imagem.

António Ramos Rosa
'Génese seguido de constelações'
Lisboa, Editora Roma, 2005

Sábado, Fevereiro 11, 2012

Kore

Cruzeiro Seixas















Do seu sorriso
de estame desprende-se
uma flor. E das tranças,
soltas como espigas
caindo-lhe dos ombros,
desabrocham
os seios. E na renda
do corpo e do seu braço
direito mutilado
dormem serpentes que umas vezes
lhe cingem os pulsos, outras
descem
ao púbis, que todavia
não se vê
mas se pressente
no movimento estudado
do braço esquerdo. E é lá
que a espiga do sexo
se abre, perfumada,
como uma rosa de sangue.



Albano Martins
«A Voz do Olhar»
Edições Universidade
Fernando Pessoa, 1998

Segunda-feira, Janeiro 30, 2012

À Sombra das Bétulas























quisera teu riso
esmigalhar com minhas mãos
tuas máculas
vislumbrar oásis
no que simulavas deserto
beber os teus olhos

quisera tocar tua dor
com a delicadeza do fabricante
de barcos de papel
com a transparência e leveza
das borboletas de gaze
feitas por mãos que já não ferem

quisera desfolhar teus lábios em outonos
repousar teus pés em água morna
mergulhar teus olhos nos meus ombros
embalar teu sono à sombra das bétulas

os meus olhos
ainda não me viram desbotar teu preto

(do meu 'Livro dos Ventos')

Terça-feira, Janeiro 24, 2012

A origem da primavera

Botticelli



quando o vento soprou
os doze cavalos da aurora
cavalgaram na terra o teu nome
foi primavera
as flores vieram
como se cada pétala guardasse
o voo branco das cegonhas e as águas do Ilisso

o teu nome veio com o vento filho do azul
como um nome ulisses
dono de todos os sons da palavra pássaro
pousaste no ventre da terra uma  ideia de ninho
e todos os vermelhos e marrons disseram o teu sangue

és
as estrelas dizem teu norte
cada voo de  pássaro guarda em ti uma rama
cada rama é  o sopro  do Zéfiro em Clóris
teu hálito é  o Zéfiro
no teu sopro  garças e rios
um campo de trigo
doze potros
dálias
o céu
a forma das nuvens em açucena
a terra
o  sêmen e a tua hora

(do meu 'Livro dos Ventos')

Domingo, Janeiro 22, 2012

A Enamorada



















Ela está de pé sobre minhas pálpebras
e seus cabelos estão nos meus
Ela tem a forma de minhas mãos
Ela tem a cor de meus olhos
Ela é devorada por minha sombra
Como uma pedra contra o céu.
Ela tem sempre os olhos abertos
E não me deixa dormir.
Seus sonhos em plena luz
Fazem evaporar os sóis
Me fazem rir, chorar e rir,
Falar sem ter nada a dizer.


Paul Éluard
Tradução. Priscila Manhães

Diana no banho

Victor Bregeda





















a mulher escreve
amor
em vermelho
ausente da palavra

guarda o homem
na escultura dos olhos
sal do mar
gravado na pedra

o peixe
pássaro-marinho
baila
na anêmona do ventre

arde o corpo mordido
por luas com água


( do livro inédito 'A Castidade e os Cães')

Da Castidade

Paul Delvaux


na minha voz cálida
ama o meu corpo
faz do verbo
carne

( do livro inédito 'A castidade e os Cães')


Os Contos de Hoffmann - Offenbach




Na França, Jaques Offenbach fez da opereta uma forma popular de diversão e suas obras fizeram enorme sucesso. As melhores delas são: Orphé au Enfers (1858), La Belle Heléne (1866), La Périchole (1868) e seu mais ambicioso trabalho: Os Contos de Hoffmann (1881). Nesta um herói trágico (Hoffmann), distinto das personagens frívolas da opereta, procura sem nunca encontrar sua musa, a mulher perfeita. Esta não passa da “promessa de um rosto” como na poesia de Baudelaire. Por suas peculiaridades temáticas e musicais, contrariamente ao que afirmam os críticos, julgamos que esta obra está muito mais para a ópera propriamente dita que para a opereta que cumpria a função social primeira de comicidade, diversão.
Na Alemanha, o movimento mais local da Bauhaus - especialmente com os arquitetos Walter Gropius e Mies Van Der Roche - desenvolveu uma estética moderna antiperspectiva, mecanicista, geométrica, anti-realista, para todas as artes plásticas e também para o teatro, sua influência apareceu na ópera alemã. os membros da Bauhaus gostaram em particular de Os Contos de Hoffmann  de Offenbach , principalmente por causa da grande diversidade de cenários existentes em suas cinco cenas e as imensas possibilidades que elas permitiam. Os cenários da Bauhaus contribuíram com uma nova,  moderna, anti-realista cenografia para a ópera em geral.
No que concerne à relação da ópera com o teatro, assinala Tranchefort que, a partir de Maria Callas, os cantores aprenderam que são também atores trágicos, que sabiam representar uma comédia. Através de um Wieland Wagner, um Felsenstein, Visconti, Strehler, Lavelli, Romponi, Chéraud ­– entre outros – têm convencido o amante de teatro que vale a pena ir à ópera. John Schelesinger também pode e deve constar – com Os Contos de Hoffmann – na lista dos bons diretores. Nesta ópera os cantores, principalmente Luciana Serra (Olympia), dão um “show” de interpretação, vocalismo e encenação. Até Plácido Domingos – quase sempre canastrão – porta-se bem representando Hoffmann. A mise-en-scène, a disposição dos elementos que compõem o cenário é perfeita.
Hoffmann, personagem central da ópera de Offenbach , tem existência real. Trata-se de E. T. A. Hoffmann (1776 – 1822), autor romântico que veio da fronteira eslava (é como Hamann, Herder e Werner, natural da Prússia oriental). Chamava-se Ernest Theodor Wilhelm, mas mudou o terceiro nome  para Amadeus em homenagem a Wolfgang Amadeus Mozart. Hoffmann tinha estudado música e foi compositor de certa importância (música sacra, a ópera Undine). Sua primeira fonte foi o romance gótico inglês. O  elemento musical inspira muitos contos da coleção Die Serapionsbrueder (Os Irmãos Serapião). Música e humorismo juntos chegam ao auge na extraordinária novela Prinzessim Brambilla na qual aparecem as máscaras da Comédia dell’arte e fantasias de costumes. Baudelaire chamou essa novela de “meu breviário de estética”. Segundo Carpeaux , para Hoffmann, o sobrenatural e natural torna-se enfim natural e comum (humorismo fantástico), enquanto a realidade da vida cotidiana torna-se sinistra e assombrosa.
Diz Otto Maria Carpeaux que a influência de Hoffmann foi imensa, podem-se citar todos os novelistas franceses, de Nerval a Balzac até Maupassant (Le Horla); Poe e Baudelaire; Púchckin, Gógol e Dostoiévski, Bécker, Karen Blixen. Os escritores russos de 1920 que chamavam seu clube de  Os Irmãos Serapião; Lovekraft, em nossos dias, e Kafka. Mas foi maior sua influência musical. Seu Kroiler determinou o estilo de Schumann, Berlioz, Brahms e Malher. Seus contos forneceram libretos   a compositores como Wagner, Busoni, Tchaikovsky e Hindemith. A belíssima barcarola acima integra a ópera Os Contos de Hoffmann de Offenbach.

Sexta-feira, Janeiro 06, 2012


a lua dissolve-se
em chuva láctea
desceu à terra para resgatar
dos versos
a poeta
que já não tem olhos
lua crescente
barca branca
náufraga
em sua taça


                                  (do meu 'Livro dos Ventos')


Elegia Múltipla III - Herberto Helder















Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.

Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria, assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
que fixam estas coisas puras.
Renascia.


Herberto Helder
'Ou O Poema Contínuo'
Assírio & Alvim
2004




A Magnólia













A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.


A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,


um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.

 
Luiza Neto Jorge
'O seu a seu tempo'
Assírio & Alvim
2ª edição
2001

Terça-feira, Janeiro 03, 2012

Belíssima Ária de Handel





*

Ombra mai fu
Di vegetabile,
Cara ed amabile
Soave più.





















"Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada." 

   (Ricardo Reis)


Domingo, Janeiro 01, 2012

Um Poema Inédito de Antônio Moura

Odilon Redon
















Cotidiano

Dia após dia,
uma sombra que nasce
no chão em chamas
da manhã - e sobe
pelo claro cordão da
tarde, para
dormir no escuro
crucificado a uma estrela

(Antônio Moura)



*
Antônio Moura (Belém 1963). É autor de Dez (1996), Hong Kong e Outros Poemas (1999), Rio Silêncio (2004)  e  A Sombra da Ausência (2009).



*


O  Poeta Antônio Moura na Revista Zunái:


http://www.revistazunai.com/poemas/antonio_moura1.htm

*

Mais Informações Sobre o Autor no Link:


 http://www.culturapara.art.br/Literatura/antoniomoura/index.htm

*

Entrevista Concedida a Rodrigo de Souza Leão:


http://www.gargantadaserpente.com/entrevista/antoniomoura.shtml


Segunda-feira, Dezembro 19, 2011

Enquanto chove

Courtney Brims
























Enquanto chove
deixa a rosa chorar o seu perfume
enquanto chove
deixa a rosa verter-se em rio-perfume de rosa
volátil condição da chuva
enquanto chove
deixa a rosa trazer na raiz um ninho de pássaro
enquanto chove
deixa o pássaro beber na água o gosto de rosa
enquanto chove
deixa a rosa soar o ventre da palavra
p
á

Ss
A
RO



(do meu 'Livro dos Ventos')


Philip Glass - The kiss






Domingo, Dezembro 18, 2011

Sonho


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sonhei
esta noite
uma
planície
estriada
de frescor

Em véus
furta-cores
de ouro azul
alga

(Giuseppe Ungaretti)
 
 

A Música das Cores



Segunda-feira, Novembro 28, 2011

Albano Martins





















Dormir um pouco — um minuto,
um século. Acordar
na crista
duma onda, ser
o lastro de espuma
que há no sono
das algas. Ou
ser apenas
a maré, que sempre
volta
para dizer: eu não morri, eu sou
a borboleta
do vento, a flor
incandescente destas águas.

(Albano Martins)



Sábado, Novembro 26, 2011

Desenredo













Do narrador  a seus ouvintes:

– Jó Joaquim, cliente, era quieto, respeitado, bom como o cheiro de cerveja. Tinha o para não ser célebre. Com elas quem pode, porém? Foi Adão dormir e Eva nascer. Chamando-se Livíria, Rivília ou Irlívia, a que, nesta observação, a Jó Joaquim apareceu.

Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão. Aliás, casada. Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jó Joaquim pegou o amor. Enfim, entenderam-se. Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento. Mas tendo tudo de ser secreto, claro, coberto de sete capas.


Porque o marido se fazia notório, na valentia com ciúme; e as aldeias são a alheia vigilância. Então ao rigor geral os dois se sujeitaram, conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme o mundo é mundo. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.

Não se via quando e como se viam. Jó Joaquim, além disso, existindo só retraído, minuciosamente. Esperar é reconhecer-se incompleto. Dependiam eles de enorme milagre. O inebriado engano.

Até que deu-se o desmastreio. O trágico não vem a conta-gotas. Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro... Sem mais cá nem mais lá, mediante revólver, assustou-a e matou-o. Diz-se, também, que a ferira, leviano modo.

Jó Joaquim, derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido ao barro, entre o inefável e o infando. Imaginara-a jamais a ter o pé em três estribos; chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser pseudo personagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.

Ela - longe - sempre ou ao máximo mais formosa, já sarada e sã. Ele exercitava-se a aguentar-se, nas defeituosas emoções.

Enquanto, ora, as coisas amaduravam. Todo fim é impossível? Azarado fugitivo, e como à Providência praz, o marido faleceu, afogado ou de tifo. O tempo é engenhoso.

Soube-o logo Jó Joaquim, em seu franciscanato, dolorido mas já medicado. Vai, pois, com a amada se encontrou - ela sutil como uma colher de chá, grude de engodos, o firme fascínio. Nela acreditou, num abrir e não fechar de ouvidos. Daí, de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz escândalo popular, por que forma fosse.

Mas.

Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam-se. Deu-se a entrada dos demônios.

Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a matou, que não era para truz de tigre ou leão. Expulsou-a apenas, apostrofando-se, como inédito poeta e homem. E viajou a mulher, a desconhecido destino.

Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste, pois que tão calado. Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. Mas, no frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a endireitar-se.

Mais.

No decorrer e comenos, Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se, a progressivo, jeitoso afã. A bonança nada tem a ver com a tempestade. Crível? Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco. Desejava ele, Jó Joaquim, a felicidade - ideia inata. Entregou-se a remir, redimir a mulher, à conta inteira. Incrível? É de notar que o ar vem do ar. De sofrer e amar, a gente não se desafaz. Ele queria os arquétipos, platonizava. Ela era um aroma.

Nunca tivera ela amantes! Não um. Não dois. Disse-se e dizia isso Jó Joaquim. Reportava a lenda a embustes, falsas lérias escabrosas. Cumpria-lhe descaluniá-la, obrigava-se por tudo. Trouxe à boca-de-cena do mundo, de caso raso, o que fora tão claro como água suja. Demonstrando-o, amatemático, contrário ao público pensamento e à lógica, desde que Aristóteles a fundou. O que não era tão fácil como fritar almôndegas. Sem malícia, com paciência, sem insistência, principalmente.

O ponto está em que o soube, de tal arte: por antipesquisas, acronologia miúda, conversinhas escudadas, remendados testemunhos. Jó Joaquim, genial, operava o passado -  plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?

Celebrava-a, ufanático, tendo-a por justa e averiguada, com convicção manifesta. Haja o absoluto amar - e qualquer causa se irrefuta.

Pois produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o assunto. Total o transato desmanchava-se, a anterior evidência e seu nevoeiro. O real e válido, na árvore, é a reta que vai para cima. Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos.

Mesmo a mulher, até, por fim. Chegou-lhe lá a notícia, onde se achava, em ignota, defendida, perfeita distância. Soube-se nua e pura. Veio sem culpa. Voltou, com dengos e fofos de bandeira ao vento.

Três vezes passa perto da gente a felicidade. Jó Joaquim e Vilíria retomaram-se, e conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor de sua útil vida.


E pôs-se a fábula em ata.


Guimarães Rosa
'Tutaméia – Terceiras Estórias'

****

Este conto de Guimarães é pródigo em sigularizações e estranhamentos, segundo a teoria de Chklovski. Esta peça é toda feita de lirismo e intensidade, marcada por um grande ensinamento trágico sobre os fatos que ligam o homem à sua errância no mundo. Como ilustra a frase "Esperar é reconhecer-se incompleto."

No plano temático, Guimarães parece apontar que a  verdade no amor é imprescindível, a traição -desde que o  é mundo é mundo -  é algo abominável e contrário a todo o princípio da arte e da ética no que tange à beleza e aprimoramento do ser. Exceto para aqueles que vivem enganando e enganando-se. Mas há quem se alimente criminosamente dela e prossiga em paz consigo e 'convolado', como diria Guimarães.

O narador não confere à personagem feminina a redençao da sua conduta reprovável. Quem a faz acreditar-se 'pura' é o personagem 'jó joaquim' que ficciona sua pureza para aceitá-la de volta. Neste sentido, o conto também apresenta-se  com  um viés eminentemente metalinguístico.  Trata-se de um jogo de espelhos, próprios da metanarração e da mise-en-abyme.

Trair a confiança alheia é um dos gestos mais reprováveis de um ser humano, desde Dante, Shakespeare e passando por Machado de Assis. Há quem estenda esta prática para além dos reis, alastrando a 'lepra' para todos oa planos das relações afetivas: cônjuges, amigos, patrões etc. Geralmente para este 'o céu é o limite'. O célebre Camões também nos diz que "contra o céu não valem mãos", estou plenamente de acordo. Aqui cabe repetir a setença imortal de Keats: 'A verdade é a beleza, a beleza a verdade!

A beleza reside na arte de criar e deve expandir-se na forma de vida do seu criador e na existência plena de todo o ser humano. "A finalidade da arte é elevar!", diz Fernando Pessoa. Se não for assim, diria Horácio, a montanha entrará em trabalho de parte e há de parir um camundongo. Registro que uma das marcas da escrita deste autor é o neobarroco, pontuado pelo uso de hipérbatos e ligado a uma escrita que tem por efeito a recriação semântica do texto mediante a fundação de neologismos e mot- valises. Estes recursos também estão presentes na poética de James Joyce.Tenho analisado este conto com os meus alunos da Pós-graduação da Fafire. Deixo-o aqui para eles!

Mondrian - Série das Árvores






*A árvore que se move do neo-impressionismo ao neoplasticismo. Mondrian é um pintor fantástico! A série das árvores integra o meu corpus de pesquisa  no doutorado.


Um Tela de Hector Juan Mári























Esta tela de Hector Mári, pintor peruano, acorda-me uma nostalgia da doce viagem  para Buenos Aires...Fiz esta foto do lado de fora da galeria, daí as marcas do vidro da vitrine. Belíssima tela, com toque surrealista e marcada pela singularidade da composição das figuras...Ressalto  que a geometria e a ambiguidade dos objetos,  que parecem flertar com a mímese dos seres, é - de fato - um convite à humanização da arte! Esta é uma prova cabal de um trabalho contemporâneo de qualidade.Onde será a próxima estação? "Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!"


Sexta-feira, Novembro 25, 2011

A Curva dos Teus Olhos




















A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre. 

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.


Paul Éluard, in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa


Rimbaud Sempre!


Rubens Zárate








rougeoyant comme un mur...

Do Mundo

Odilon Redon


*

Pus-me a saber: estou branca sobre uma arte
fluxa e refluxa:
a lua nasce da roupa fria, sai-me a cabeça
das zonas da limalha,
dos buracos fortes da água.
Diz ela. Reluzo como um carneiro,
pêlo aos anéis no mármore vivo, ou redemoinhando a estrela.
tranço ramas de sal e de enxofre.
Diz a criança: a tontura amarela das luzes quando abro para o vento,
quando ao longo da noite que me percorre,
aqui abrasada a gramática,
aqui está o meu nome posto em uso.
As coisas pensam todas ao mesmo tempo.
Os animais, o seu clima de ouro.
Diz.
Com a lepra na boca, a lepra que não me deixa falar.
Água das madres pelo umbiguo, a lua exalta-me o nome,
para que eu cresça, à sua volta, para que eu possa
um dia
morrer dele, inundada, lustral.
É uma arte louca.

*

[Herberto Helder. Fragmento]


 

Quinta-feira, Novembro 24, 2011

Como um eco




















Não tinhas nome. Existias como um eco do silêncio. Eras talvez uma pergunta do vento.

[Albano Martins]