Sábado, Outubro 31, 2009

natura naturans - Robert Burns

Jacineide Travassos é poeta e crítica de arte.
Contato: jacineidetravassos@hotmail.com

O Livro Dos Ventos se encontra disponível na LIVRARIA CULTURA, LIVRARIA IMPERATRIZ, pode ser adquirido ainda na EDITORA BAGAÇO ou com a AUTORA.

Segunda-feira, Outubro 01, 2007

Nascimento do Mundo (Prólogo)

Jorge Moreira












O verbo se fez. Dizem que surgiu do hálito do homem, um sopro na terra. Antes da terra o homem, antes do homem o vento, antes do vento Idea que se fez verbo. Idea abriu os olhos para dar origem às coisas e pensou o mundo, a princípio, dividido em dois azuis: um azul de sombra e um azul de luz. Inventou a Morte e a Eternidade, a Caverna e a Inteligência. Idea, embora não soubesse, havia de separar o mundo em dois iguais. Disse: - Acima de mim as alturas, a região celeste. Fixou os astros. Para o céu pensou a Paz e todas as criaturas aladas, como um primeiro sopro da alma disse “Pássaro” e o som desta palavra trouxe o Vento.
Idea viu que o Vento, nascido do Pássaro, era em abstrato. Ser em abstrato talvez tenha sido a intenção da palavra Pássaro, mas o Vento queria também ser palavra e não apenas som de Pássaro. Fez-se então a Vontade e para que o Vento pudesse ser visto e se mover entre as coisas, Idea criou as Nuvens. As Nuvens, nascidas da Vontade e do Vento, logo quiseram ser mais que suas formas. Das Nuvens surgiram Desobediência e Desordem. Já que as Nuvens existiam em razão do Vento, Idea concedeu-lhes a Terra para que fossem também palavra. A Terra sabendo-se palavra dura, sendo apenas a contradição das Nuvens, quis ser pátria para o Pássaro, teria que acolher o Vento. Idea pensou para a Terra também a Água.Tão distante dos astros, sendo apenas o seu espelho, Água reclamou à Idea o seu sentido, criaram-se os peixes à semelhança dos pássaros. O Vento é o que move as águas. Surgiram os Cavalos Marinhos e toda sorte de plantas e seres viventes, que logo quiseram astros para animar seus azuis, Idea valeu-se de duas palavras para medir o céu do mar. Fez-se a Estrela Marinha.
A Terra atribuía sua dureza ao Sol que lhe corava em seus vermelhos. A Terra Chorou ao conceber Pedra. Foi para seu consolo que Idea criou a palavra Sede, e fez a água ser-lhe útil. Pensou toda a sorte de Verdes e Marrons e deu-lhe o mar, o rio e o lago, as árvores, os cavalos e a Ilha. Elegeu o Sol, a Lua e os outros astros para dar ritmo a tudo, surgiram as Estações e a Música. Para dar-lhes sentido casou-as com o Tempo.
O Tempo, sonhando-se Deus, riu do Homem que o mede, vive enciumado de tudo que existe e é o pai de Necessidade e Solidão. Concebeu-as para justificar o seu nome.O Homem, embora pense ter surgido depois de tudo, é o próprio Verbo. Nasceu da vontade que Idea compartilhou com o Vento de não ser apenas em abstrato, mas existir.

Domingo, Setembro 30, 2007

Então é Primavera

Chema Madoz



















no branco-lírio dos olhos
é noite
primavera de astros

firo os pés em estrela marinha
flor de pedra
vermelho coágulo

sangro fome de pássaros

Poética
















o vento cobre o barro
o oleiro faz do vaso o vazio
opala derramada
sobre o negro dos olhos

o barro cobre o vento
o oleiro faz do vazio o vaso
a mesa outonal desfaz-se em folhas

Sábado, Setembro 29, 2007

Natureza Móvel Com Peixes Vermelhos

Matisse



















O mundo faz-se do olhar
espaços sugeridos pela diagonal
planos sem volume
dissolvem-se na memória

As mãos lentamente
erguem a escritura das ondas

O olhar afoga-se
por entre o anil do céu
e o musgo das árvores
compõe-se o quadro dos amantes
navega-se sobre as águas do ar
plumas semeadas de olhos

O navio alça-se pássaro
lança-se em águas etéreas
a âncora faz-se ânfora
os corpos entrelaçam-se
na trilogia do sonoro do diáfano do móbil
na ânsia do toque
os olhos
mergulha-os no aquário
com peixes vermelhos